08 February 2010

Coragem ou burrice

Existe um linha tênue entre a coragem e a burrice. De tempos pra cá comecei a questionar onde foi que eu parei. Sem poder enxergar a tal linha, concluí que bem em cima dela.

Sair do Brasil e sentar campo em terra estrangeira aos vinte e seis anos simplesmente aconteceu. Perdi e ganhei – como em qualquer escolha na vida que nos leva pra longe, no sentido físico, mental ou espiritual.

Ter uma filha com um norueguês mais novo que eu, em Londres, sem planejar nem pensar pode ter sido irresponsável, mas foi ao mesmo tempo maravilhoso.

Me encontrar na Inglaterra, sem pai nem mãe, sem trabalho (preços de creches e horários de trabalho são proibitivos para quem não é professora ou bancária) e sem nem sequer uma amiga que soubesse preço - ou utilidade - de fraldas foi duro.

No Brasil eu cresci com a certeza de que um dia teria filhos, carreira, empregada e, provavelmente, ex-marido...

Sete anos se passaram desde que a Lea nasceu. Muito passou. Muito ficou. Tudo o que aprendi carrego comigo. É aquilo que ninguém pode nos tirar.

Decidi que fiquei na Inglaterra para fazer o que tinha que ser feito (por mim) e agora posso voltar para o Brasil. E que ficar seria ultrapassar o limite da coragem...

02 February 2010

Trezentas e trinta e cinco libras e vinte e um pence

www.onimage.co.uk

Há alguns anos entrei como colaboradora na Onimage. No início a idéia era investir tempo escaneando negativos (!) para um dia receber um pagamento surpresa, por alguma foto vendida em algum lugar no mundo. Idealmente seriam vários dias e vários pagamentos. Mas só aconteciam cheques de £7,52 - sempre a mesma imagem e sempre para jornais.

Ontem o dia chegou e com ele vieram um recibo de £335,21 e uma sensação de reafirmação. Talvez confirmando o que a Simone disse e me contradizendo (What do you do? Nem Lá Nem Aqui - 14Ago09), vender uma imagem me trouxe de volta a motivação para investir tempo em fotografia como fonte de dinheiro, reconhecimento e auto-estima.

Escolher praticar a fotografia apenas como arte é muito bonito. E decidir que por conta disso não preciso fazer dinheiro com ela é muito cômodo. Então foi um pôr do sol com coqueirinho que me mostrou o quanto eu estava errada, e quanto trabalho tenho pela frente... como diz o Camilo, a gente não quer ser Van Gogh, a gente quer ser Damien Hirst...

28 January 2010

Sete anos

21 January 2010

Sísifo de volta à montanha

14 January 2010

Aqui

De volta a casa, ao frio e as camadas de roupas. À escuridão lá fora e a solitude da rotina da casa.

De volta ao chá com leite acompanhado pelo The Guardian. A minha própria cama e ao prazer de ter uma rotina.

23 December 2009

Paulicéia revisitada

No primeiro dia não tirei o sorriso do rosto.
No segundo dia tomei banho de piscina e li a Folha deitada no sol.
No terceiro dia saí - e então percebi que São Paulo e eu não nos conhecemos mais.

No quarto dia vi de perto a alegria e o calor humano que vim buscar.
No quinto fui ao Itaú Cultural.
No sexto reuni amigos.
Descansei todos os dias.
Percebi minhas inglesisses e brasileirisses.
Testemunhei a supremacia dos carros.
Não vi nenhuma criança de rua.

Comi açaí na tigela, mamão, pão de queijo, biscoito de polvilho, requeijão, queijo branco, pão na chapa, água de coco, brigadeiro, pão doce, churrasco e purê de mandioqinha.

No sétimo dia parti.
Mas levo São Paulo comigo pra poder voltar.
Digo, pra poder morar. Lá.
E Flávia e Ricardo: much obliged.

14 December 2009

Natal no Brasil

O boneco de neve vai derreter. Papai Noel sempre derrete. Eu vou derreter. Não vejo a hora.

08 December 2009

Zygmunt Bauman x Jerry Bruckheimer

Ontem fui trabalhar em Londres. Na estação de Brighton comprei chá, o jornal, água, a The Economist. Deveria assinar. E também a Intelligent Life – que acabei de descobrir que existe. Parece interessante. Julian Barnes escreve pra eles. Adoro quando ele escreve histórias curtas para o Guardian. Nunca li um livro dele...

Deveria ler mais. Me faz feliz. Requer disciplina. É como exercício. Nunca há tempo. Tem que fazer - o tempo.

Sempre tenho tempo para televisão. Geralmente filmes (tenho orgulho da minha aversão a reality tv). As vezes documentários. As vezes CSI.

Hoje acordei atrasada. Acordo atrasada todos os dias - corro pra cima e pra baixo pra aprontar a Lea para a escola. Então a levo para a escola. Volto pra casa e subo para o escritório.

Hoje o dia passou por mim – trabalhar em casa é geralmente sinônimo de tentativa. Raramente de sucesso.

Hora de fazer o jantar e mandar a Lea para a banheira. Depois arrancá-la da banheira. Colocar ela pra dormir. Nessa hora a escolha é sempre um livro.

Vou para a minha cama. Posso ler Bauman (o preferido do momento) ou assistir televisão. Preciso costurar uma meia-calça da madame, responder um e-mail do meu supervisor e listar alguma coisa. A TV ganhou. Ficou tarde. Amanhã leio.

01 December 2009

A Raposa e o Pequeno Príncipe


"E foi então que apareceu a raposa:

Bom dia, disse a raposa.
Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
Quem és tu? perguntou o principezinho.
Tu és bem bonita.

Sou uma raposa, disse a raposa.
Vem brincar comigo, propôs o príncipe, estou tão triste...
Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.
Não me cativaram ainda.
Ah! Desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:
O que quer dizer cativar ?
Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.
Significa criar laços...

Criar laços? Exatamente, disse a raposa.
Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade de ti.
E tu não tens necessidade de mim.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...

Mas a raposa voltou a sua idéia:
Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco.
Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol.
Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros.
Os outros me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora como música.

E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo?
Eu não como pão. O trigo para mim é inútil.
Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste!
Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
Por favor, cativa-me! disse ela.

Bem quisera, disse o príncipe, mas eu não tenho tempo.
Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa.
Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos.
Se tu queres uma amiga, cativa-me!

Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.
Mas tu não a deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."

Antoine de Saint-Exupéry

27 November 2009

Reservado

19 November 2009

Trevas

2pm. Mid-November. Home. Hove. England. North Hemisphere.

15 November 2009

DIY III

14 November 2009

Globalização

Tem sotaque inglês, rosto norueguês e alma brasileira.

10 November 2009

Luz e eu

09 November 2009

Dim Sum

Há mais ou menos trinta e sete anos que desigualdade e injustiça me atormentam. Já incitei quem por aqui passa a fazer – o que esperamos seja – a sua parte para melhorar o mundo. Nisso também questionei qual é o meio termo, o quanto se pode fazer sendo quem somos – artistas, professores, profissionais da classe média que trabalham duro para pagar as contas e jantar fora de vez em quando.

Ontem fui comer Dim Sum e beber coquetéis em um restaurante bacaninha em Cardiff. Maravilhoso. Hoje de manhã fiquei na cama lendo, enquanto o marido e a filha brincavam na piscina do hotel onde estamos. Maravilhoso. Só que a leitura era a The Economist, então um assunto inevitável é a miséria humana. O líder da Coréia do Norte acusado de alta traição, a área na Coréia do Sul onde setenta por cento da população vive de mingau de milho com capim e a vista grossa do ocidente, preocupado apenas com a desarmamento nuclear naquela região.

De volta: deixar de comer Dim Sum não faz diferença na vida de ninguém exceto a minha. Estou no País de Gales por que meu marido está aqui, a trabalho, por três meses - o vejo esporadicamente. No dia-a-dia tenho uma filha pra ensinar valores e – o que não tenho – disciplina. Além de tentar desesperadamente dar rumo ao meu trabalho e encontrar sentido em tudo isso. Ainda sem saber se fico ou se vou, lógico.

Tem sempre alguém em uma situação pior que a minha. Isso não pode ser medida de contentamento. Não funciona. Quero um carro novo, maior. Quero ir ao Brasil com mais frequência. Quero jantar fora com mais frequência. Deveria poder quereres sem me sentir culpada.

Levo minha vidinha de uma em cinco bilhões (and counting). Não sou diretamente responsável pela exploração de recursos naturais e nem da mão de obra alheia. E então, mais uma vez, a questão: cada um dos mais de cinco bilhões tem que fazer o que lhe cabe para que o mundo não acabe – pelo menos não nas nossas mãos. E para que a injustiça dos homens não se esconda atrás da injustiça dos deuses. E segue em frente que atrás vem gente.

03 November 2009

Sísifo III


28 October 2009

DIY II


21 October 2009

Lá e Aqui


Do alto da minha arrogância juvenil(!), mais aqui do que lá, não consigo não dizer: o Lula tem muito crédito. Aqui - de onde acompanho previsões econômicas, análises sociais, G8, G20 e agora a campanha vitoriosa para o Rio 2016 - ele manda muito bem. 

Sim, política no Brasil é um assunto dolorido. Corrupção ainda corrompe o dia-a-dia, desnutrição e falta de educação ainda resultam em desespero e violência. Mas o Brasil levou as Olimpíadas por um boa razão. Alguém lá em cima gosta da gente. Não, não o ser-supremo e brasileiro. Os (até agora) todo-poderosos governos europeus e estadunidense (palavrinha horrorosa). Eles querem ser nossos amigos. Tem boas razões (sempre) econômicas pra isso.

No dia-a-dia brasileiro as mudanças são poucas e insignificantes? Mas existem, ouço da boca (virtual) de vários brasileiros e leio nos jornais ingleses. E insignificantes pra quem? Para os quem tem um pouco mais de comida na mesa, trabalho, um eletrodoméstico novo? Não. Pra quem esperava mais e mais rápido do governo do PT imagino que sim. Mas quem olha de longe vê progresso. Aquele da bandeira. 

A classe média, tão desiludida em toda parte, é a principal agente de mudança que nós conhecemos. A classe média brasileira está acostumada a reclamar. E tem do que reclamar. Mas agora é hora de reconhecer que chegou a hora de também agir. E o primeiro passo é admitir que a carroça está andando. 

No hemisfério-norte-rico é hora de rever desejos consumistas – para produzir menos lixo e desinflacionar o custo dos alimentos no mundo - além de reconhecer a extensão da própria alienação social. No hemisfério-sul-classe-média é hora de aprender a respeitar filas, cumprir regras - mesmo as da burocracia, não beber quando vai dirigir, não dirigir no acostamento, não pedir para a empregada fazer mais do que foi combinado no primeiro dia, não agir como se falar português bem ou ter pele quase branca desse crédito para sequer pensamentos de superioridade. E ensinar isso aos filhos. Com gestos. E boa sorte. Pra nós todos.

18 October 2009

Domingo

Poema que aconteceu 
 
Nenhum desejo neste domingo  
nenhum problema nesta vida 
o mundo parou de repente  
os homens ficaram calados 
domingo sem fim nem começo. 

A mão que escreve este poema  
não sabe o que está escrevendo  
mas é possível que se soubesse 
nem ligasse.  

Carlos Drummond de Andrade  
31/10/1902 - 17/08/1987

11 October 2009

Depois de tê-los, como sabê-los?




07 October 2009

DIY

Do It Yourself. Faço. Mal. Isso aqui é a capital mundial do DIY. Vai além do preço da mão de obra. É parte da cultura.

Pintar o exterior da minha casa é um trabalho especializado o suficiente para eu poder contratar alguém pra fazer. Mas as letras não chegaram a tempo para que as meninas as colocassem na porta. Lá fui eu, de martelo e estopa em punho.


Mesmo que eu estivesse disposta a pagar um ser humano pra fazê-lo, não existe chamar alguém pra fazer o que você pode fazer por conta própria. Em três minutos.

O O ficou muito perto do olho mágico e o N um pouquinho torto. Suficiente pra não ficar perfeito. Like everything I do it myself.

03 October 2009

Chronos

Aos seis anos aprendi a ler e escrever; aos onze perdi meu padrasto; aos doze a Magdalena; aos quatorze descobri os homens; aos quinze a maconha; aos dezesseis trabalho; aos dezoito a fotografia; aos vinte e um conheci o amor eterno; aos vinte e dois o hedonismo; aos vinte e três o mundo; aos vinte e sete tive meu coração partido; aos trinta conheci a maternidade e com ela a culpa máxima; e então o amor no mundo real; aos trinta e três descobri a sociologia; aos trinta e quatro perdi meu pai; aos trinta e cinco descobri o vinho tinto; aos (quase) trinta e sete aprendi a me sentir confortável dentro da minha própria pele.

27 September 2009

Na prateleira




20 September 2009

Mudei de idéia

From a tiny book called House and Home II:

"The fellow that owns his own home is always just coming out of a hardware store."

Frank McKinney Hubbard

13 September 2009

Conforto

Na Inglaterra a vida é tranquila. Não existe tensão social (quase). O serviço público de saúde é exemplar. Acreditem em mim, não na Sarah Palin. O governo é liberal e se vive (ou pelo menos se tenta desesperadamente) de acordo com os princípios do secularismo. Liberdade de expressão é a norma. Londres é, arguably, a cidade mais cosmopolita do mundo.

Recentemente acusei - em English Maths - os ingleses de atitudes-com-raízes-em-imperialismo-e-racismo. Recebi uma tormenta - se não em números em intensidade - de comentários escritos e verbais. De ingleses honorários ou oficiais. Não é racista o mundo ocidental inteiro? Os brasileiros realmente acreditam que não são racistas, mas apenas(!) classistas? Se fosse verdade, seria isso realmente algo do qual se orgulhar?

É fácil viver aqui e reclamar da falta de sol. Todo o mundo faz isso, começando com os ingleses. É fácil viver no Brasil e reclamar da violência. Todo o mundo faz isso, começando com os brasileiros.

É fácil viver na Inglaterra, ser estrangeira, brasileira, cool e olhar os outros de cima e pensar: de onde eu venho nós temos sol, calor, calor humano, a comida é maravilhosa. As pessoas são espontâneas e lindas. A medicina é incrível (deixemos de fora o por-que-eu-posso, claro) e a alegria impera.

É fácil ir ao Brasil, ser estrangeira - ou pelo menos estranha - moradora da Inglaterra, chique, olhar os outros de cima e pensar: eu vivo em um país civilizado, sem violência nas ruas, onde eu posso comprar uma calça jeans bem cortada sem a implicação moral de gastar o correspondente a três meses de salário de alguém que mora não muito longe. Aí é só vestir a tal calça e me incluir no grupo de gente linda, talentosa e bem sucedida que adora saber que eu fiz um mestrado em Londres. Posso mencionar Bordieu, discutir Sontag e fingir que sei algo de Foucault. E no meio do caminho admitir que não faço idéia quem foi Cummings e nunca li Platão. Ou Freud.

O problema é que sempre chega a hora em que percebo que ser estrangeira envolve perda ou confusão de identidade. E que, nem tão no fundo, eu adoraria ter uma empregada - e - uma diarista. Que a tal calça bem cortada não garante estilo em lugar nenhum do mundo. Que os móveis da Ikea (que lotam minha casa) foram, potencialmente, feitos por trabalhadores explorados em alguma parte do mundo. Eles só moram mais longe. Que racismo, miséria e injustiça existem em todos os lugares e minha atitude perante o mundo é ingênua e egoísta.

A verdade é que sinto falta de médicos especialistas a disposição de um toque no telefone. Que aprendi a comer bem aqui. Que nunca vou manter uma discussão de igual pra igual com meus amigos intelectuais. Que não tenho disciplina para me manter linda como as brasileiras no Brasil fazem. E que ao mesmo tempo nunca vou me permitir orgulho de quaisquer imperfeições do meu corpo, que na era do Photoshop, são infindas. Nem lá nem aqui é decididamente um lugar confortável.

06 September 2009

Gente Grande

Segunda-feira começam as aulas da Lea. Segunda-feira, antes das dez tenho que estar na Rox. Ao meio dia no St John Hospice, no norte de Londres. Ainda não tenho um gravador. A tarde o Ben vem brincar. A janela do quarto tem que ser consertada. Marido trabalhando no país de Gales. Volta na sexta. Ou na quinta. Na terça tenho que sair de casa as sete e meia da manhã, mas ainda não sei pra onde. Um trem sai de Marylebone as nove e vinte. Na quarta volto a Londres, por quatro horas. A Lea vai brincar na Ella. Minha quinta ainda não foi confirmada - mas a Talia vem brincar. Troca a data da acupuntura. Sexta talvez tenha festa de aniversário de adulto, a noite. Sábado, domingo e nova segunda-feira em Londres. Na terça o marido vai para Los Angeles. Eu, de volta a Londres para o sábado e domingo trabalhando. Domingo tem festa de aniversário de criança. Prometi fazer o bolo. Esqueci. Desculpa. Toca o telefone de novo. Talvez não trabalhe no fim de semana. Talvez possa fazer o bolo afinal. Mando um texto na sexta. Na quarta tem workshop no Fabrica. Tinha esquecido.

31 August 2009

Ilhada

Os dias escorrem pelos dedos. Dos pés. Enquanto não encontro tempo para muito dentro do maravilhoso mundo do Facebook, os links oferecidos pelos amigos são os melhores de há muito. No jornal estão as mais interessantes matérias dos últimos dias, semanas, meses - as acumulo na mesa da sala. A grama da vizinha fica cada dia mais verde. Ela não tem galinhas. Nem eu.

A consciência destas impressões me catapultaram à outra: começo a gostar (cada vez mais) da minha casa, de Brighton, de Londres, da Inglaterra e de seus valores. Comprei passagem para ir visitar o Brasil. Prometi a mim e a muitos ir olhar de perto. Na hora de sair do limbo percebo que ele é um lugar confortável.

25 August 2009

72

JORFerlauto

97

JORFerlauto

101

JORFerlauto

132

JORFerlauto

24 August 2009

Aniversário

Fotos: Juan Carlos Meza

Se perguntarem
digam que sim,
fumei meus dias.


JORFerlauto
11/07/1951 – 24/08/2007


O canceriano morreu de câncer. Cresceu e viveu Dedé, mas nos últimos anos adotou o nome de batismo: José Otávio. Assim morreu. José Otávio, poeta, jornalista, cronista. Meu pai.

Fumou todos os dias, dos 16 aos 56 anos. Não bebia. O matou um câncer no fígado - os pulmões intactos. Nos últimos dias o cigarro requeria muito esforço para manter na boca. Alguns eu mesma segurei para que ele pudesse fumar.

Os filhos todos vieram para perto. Um luxo, disse ele, com um sorriso fraquinho. Meu irmão e eu nos atiramos da Inglaterra para o Brasil para estar lá. Por ele e por nós mesmos. Somos quatro - ex-fumantes, não fumante e fumante. Todos fumávamos naqueles dias de companhia e vigília. Em homenagem. E desespero.

23 August 2009

Ervas, legumes, frutas e flores II

Agora visíveis. Agora com beterrabas. A grama vai ficando. Lembro sempre do meu pai. Plantas dão trabalho e prazer. Ele gostava dos dois.

17 August 2009

Sísifo II


14 August 2009

What do you do?

Há anos odeio o momento em que vem a pergunta: so, what do you do? Mmm... I am a photographer... and I'm doing an internship as a researcher... sociology. And I work as a Photoshop retoucher. What? I retouch images in Photoshop. Yeah... and I write a blog. And I’m a mum and a housewife. A esta altura da hierarquia das minhas atividades quem perguntou já foi buscar outro copo de vinho.

Pra quem leu até aqui pode parecer bastante, mas esse bastante não se traduz em uma carreira, nem em um salário regular e consequentemente não tem influência sobre a minha auto-estima.

Outro dia uma amiga me perguntou, na cara - do Skype: quando você vai voltar a trabalhar como fotógrafa? Errr... eu nunca parei... parou sim, você retoca imagens em Photoshop! Que digo eu? O critério é esse? O que paga as contas? Nunca paguei as contas como fotógrafa.

Já comprei roupas, livros, viagens e jantares, mas nunca paguei as contas. Mesmo antes de ser mãe, e me perder de vez no mundo-ocidental-profissional, o que pagava as contas era o Photoshop. E antes disso o marido. E depois disso o outro marido.

Esses dias ensaio desenvolver meu próprio trabalho, fotografando e escrevendo, traduzindo – enquanto não consigo cuspir ou vomitar - meus sentimentos. Um dia responderei: I’m an artist – ou - I’m a housewife. O efeito é parecido e dá pra dizer em um só suspiro.

04 August 2009

Estava escrito