Ser esnobe é... se chove não quero sair para caminhar, se venta e faz frio visto um casaco e me encolho, se a água é gelada não tomo banho e se o sol sai ao meio-dia me recuso a deitar embaixo dele...
20 July 2010
Cornualha, alto verão.
Ser esnobe é... se chove não quero sair para caminhar, se venta e faz frio visto um casaco e me encolho, se a água é gelada não tomo banho e se o sol sai ao meio-dia me recuso a deitar embaixo dele...
07 July 2010
Hove, actually.
Antes de mudar pra Brighton usei a expressão sem nem saber que era famosa. Acontece que todo mundo sabe onde fica Brighton, mas eu moro em Hove. É um clássico: where do you live? In Brighton, well, in Hove actually. (Uma rua e uma estátua marcam a divisa.)
29 June 2010
11 June 2010
Aqui e Lá
Pedalava eu a caminho do trabalho ontem, em um dia de temperatura amena e sol quase brilhando entre as nuvens. E pensava... daqui a pouco vai ser o trânsito de São Paulo e o sol a pino. E eu também vou gostar...
02 June 2010
24 May 2010
12 May 2010
02 May 2010
Histórias
Chimamanda Adichie define o perigo da única história... eu faço parte – na cabeça de muita gente, por que sou brasileira - de uma única história... e quando encontro alguém que repete essa única história não acho engraçado... mas as vezes me pego lutando contra minhas próprias idéias baseadas em únicas histórias.Chimamanda Adichie: The danger of a single story | Video on TED.com
*vem com legendas em português, é só clicar em languages, embaixo da janela do vídeo.
22 April 2010
Onde foi que eu errei?
Será que foi quando eu pensei que ser mãe, em outro continente, com um marido caixeiro viajante (aka* filmmaker) seria tão simples quanto fazê-lo em casa - no Brasil?Será que foi quando eu percebi que não tinha jeito - e que ficar em casa com minha filha, amamentando, limpando e cozinhando era o único caminho?
Ou foi quando depois de um ano eu disse agora chega, mas não soube por onde começar a chegar...?
Teria sido quando insisti em ficar na Inglaterra, onde depois da maternidade, não me adaptei nem me encontrei?
Talvez tenha sido simplesmente por ter pensado que maternidade poderia ser, em algum lugar, simples. E não perceber que trabalhar, na indústria criativa, sem serviçais, é parte de um conto de fadas. Sem as fadas, lógico.
Mas em algum lugar eu acertei, porque minha filha é uma pessoa ótima.
*also known as
15 April 2010
Pecadores
Na primeira vez em que fui a Noruega uma verdade simples me bateu na cara: a natureza lá é belíssima, mas hostil. Os Fiordes são gigantescos e a neve se acumula aos metros. Homens e mulheres sempre tiveram de pensar adiante, trabalhar duro no verão para sobreviver ao inverno. Algo como as formigas em A Cigarra e a Formiga de Esopo.Seremos nós a cigarra? Sem ter que passar pelo inverno, convivendo com a natureza belíssima e generosa - mas quando a Revolução Industrial e a Era Contemporânea chegaram nossos pés congelaram? Será imediatismo nosso maior pecado?
08 April 2010
A Noruega distante
Tem quatro milhões de habitantes; muito petróleo; belíssimos fiordes (Google, se necessário); muita neve; muito conforto material; sistemas de educação e saúde públicos com qualidade de primeiro mundo(!); um ano de licença maternidade ou paternidade, a escolher; impostos de até quarenta e nove por cento na fonte; expectativa de vida muito longa; título de país com a melhor qualidade de vida do mundo em inúmeras listas acadêmicas; patriotismo; individualismo e um grande orgulho: irrisória diferença de classes.
01 April 2010
24 March 2010
Borralho
Hoje as dez e meia eu já tinha tomado café da manhã, levado minha filha para a escola, lido o jornal, feito as camas, recolhido a roupa limpa e adiantado o jantar descascando cenouras e colocando-as na panela de vapor para cozinhar – suflê! Ao meio dia já tinha respondido e-mails, adiantado parte do trabalho (escrito) do dia e queimado irremediavelmente a tal panela. E com ela se foi minha sensação de mulher-maravilha.
18 March 2010
11 March 2010
Direitos
Quando acordar cedo, dormir cedo. Comer bem e comedidamente. Pouca carne. Evitar muito sal, açucar, cafeína e álcool. Beber litros de água. Passar creme no rosto. No corpo. Nos cotovelos. Fazer exercício. Fazer as unhas. Escovar os dentes com escova de dentes elétrica. Usar fio dental. Evitar água muito quente no banho. Não desperdiçar água. Não desperdiçar comida. Não desperdiçar energia. Fazer yoga. Evitar usar o carro. Usar a bicicleta. Questionar a fonte do que se come, bebe e veste. Ler o jornal. Ler mais livros. Dar atenção a filha. Ao marido. A mim mesma. Aos amigos. A mãe. E trabalhar. E não reclamar.
07 March 2010
28 February 2010
Não há muito o que contar
Não há muito o que contar,para amanhã
quando já desça
ao Bom-Dia
é necessário para mim
este pão
dos contos,
dos cantos.
Antes da alba, depois da cortina
também, aberta ao sol do frio,
à eficácia de um dia turbulento.
Devo dizer: aqui estou,
isto não me aconteceu e isto acontece;
enquanto isto as algas do oceano
se movem predispostas
à onda,
e cada coisa tem sua razão,
sobre cada razão,
sobre cada razão um movimento
como de ave marinha que levanta
da pedra, da água, da alga flutuante.
Eu com minhas mãos devo
chamar: venha qualquer um.
Aqui está o que tenho, o que devo,
Ouçam a conta, o conto e o som.
Assim cada manhã de minha vida
trago do sonho outro sonho.
Pablo Neruda
12/07/1904 - 23/09/1973
21 February 2010
15 February 2010
Finalmente
Decisão tomada. A volta ao Brasil é inevitável. A natureza, o calor - do sol e humano - os amigos, a família, a comida e, alas, as empregadas domésticas me puxam como um ímã gigante e irresistível.Tanto tempo pra tomar uma decisão e a parte difícil começa agora. Burocracia brasileira é um deleite... a Lea não é brasileira nata, acabo de descobrir. Tem passaporte e certidão de nascimento brasileiros, mas pra viver no Brasil tem que ser brasileira nata. E assim caminhamos todos nós...
A matemática é desestimulante. Alugar a casa em Brighton. Empacotar a casa em Brighton. Abrir conta em banco. Conseguir fiador. Buscar morada em São Paulo. Desempacotar a casa em São Paulo. Organizar plano de saúde. Achar escola. Encontrar a tal empregada. E esse cálculo não inclui números.
Quando chegar, já me achando paulistana, vou ler a Folha todos os dias e, ainda com ranço de inglesa, vou em busca do Guardian nos sábados. Vou reclamar do trânsito e não sair de casa por uma semana. Vou tomar café em lugar de chá e olhar tudo em volta com olhos deslumbrados. A cidade e as pessoas vão me inspirar. Ter meus amigos mais perto vai me fazer feliz. E depois disso eu não sei.
08 February 2010
Coragem ou burrice
Existe um linha tênue entre a coragem e a burrice. De tempos pra cá comecei a questionar onde foi que eu parei. Sem poder enxergar a tal linha, concluí que bem em cima dela.Sair do Brasil e sentar campo em terra estrangeira aos vinte e seis anos simplesmente aconteceu. Perdi e ganhei – como em qualquer escolha na vida que nos leva pra longe, no sentido físico, mental ou espiritual.
Ter uma filha com um norueguês mais novo que eu, em Londres, sem planejar nem pensar pode ter sido irresponsável, mas foi ao mesmo tempo maravilhoso. No Brasil eu cresci com a certeza de que um dia teria filhos, carreira, empregada e, provavelmente, ex-marido...
Me encontrar na Inglaterra, sem pai nem mãe, sem trabalho (preços de creches e horários de trabalho são proibitivos para quem não é professora ou bancária) e sem nem sequer uma amiga que soubesse preço - ou utilidade - de fraldas foi duro.
Sete anos se passaram desde que a Lea nasceu. Muito passou. Muito ficou. Tudo o que aprendi carrego comigo. É aquilo que ninguém pode nos tirar.
Decidi que fiquei na Inglaterra para fazer o que tinha que ser feito (por mim) e agora posso voltar para o Brasil. E que ficar seria ultrapassar o limite da coragem...
02 February 2010
Trezentas e trinta e cinco libras e vinte e um pence
www.onimage.co.uk Há alguns anos entrei como colaboradora na Onimage. No início a idéia era investir tempo escaneando negativos (!) para um dia receber um pagamento surpresa, por alguma foto vendida em algum lugar no mundo. Idealmente seriam vários dias e vários pagamentos. Mas só aconteciam cheques de £7,52 - sempre a mesma imagem e sempre para jornais.
Ontem o dia chegou e com ele vieram um recibo de £335,21 e uma sensação de reafirmação. Talvez confirmando o que a Simone disse e me contradizendo (What do you do? Nem Lá Nem Aqui - 14Ago09), vender uma imagem me trouxe de volta a motivação para investir tempo em fotografia como fonte de dinheiro, reconhecimento e auto-estima.
Escolher praticar a fotografia apenas como arte é muito bonito. E decidir que por conta disso não preciso fazer dinheiro com ela é muito cômodo. Então foi um pôr do sol com coqueirinho que me mostrou o quanto eu estava errada, e quanto trabalho tenho pela frente... como diz o Camilo, a gente não quer ser Van Gogh, a gente quer ser Damien Hirst...
28 January 2010
21 January 2010
14 January 2010
Aqui
De volta a casa, ao frio e as camadas de roupas. À escuridão lá fora e a solitude da rotina da casa. De volta ao chá com leite acompanhado pelo The Guardian. A minha própria cama e ao prazer de ter uma rotina.
23 December 2009
Paulicéia revisitada
No primeiro dia não tirei o sorriso do rosto. No segundo dia tomei banho de piscina e li a Folha deitada no sol.
No terceiro dia saí - e então percebi que São Paulo e eu não nos conhecemos mais.
No quarto dia vi de perto a alegria e o calor humano que vim buscar.
No quinto fui ao Itaú Cultural.
No sexto reuni amigos.
Descansei todos os dias.
Percebi minhas inglesisses e brasileirisses.
Testemunhei a supremacia dos carros.
Não vi nenhuma criança de rua.
Comi açaí na tigela, mamão, pão de queijo, biscoito de polvilho, requeijão, queijo branco, pão na chapa, água de coco, brigadeiro, pão doce, churrasco e purê de mandioqinha.
No sétimo dia parti.
Mas levo São Paulo comigo pra poder voltar.
Digo, pra poder morar. Lá.
E Flávia e Ricardo: much obliged.
14 December 2009
08 December 2009
Zygmunt Bauman x Jerry Bruckheimer
Ontem fui trabalhar em Londres. Na estação de Brighton comprei chá, o jornal, água, a The Economist. Deveria assinar. E também a Intelligent Life – que acabei de descobrir que existe. Parece interessante. Julian Barnes escreve pra eles. Adoro quando ele escreve histórias curtas para o Guardian. Nunca li um livro dele... Deveria ler mais. Me faz feliz. Requer disciplina. É como exercício. Nunca há tempo. Tem que fazer - o tempo.
Sempre tenho tempo para televisão. Geralmente filmes (tenho orgulho da minha aversão a factual tv). As vezes documentários. As vezes CSI.
Hoje acordei atrasada. Acordo atrasada todos os dias - corro pra cima e pra baixo pra aprontar a Lea para a escola. Então a levo para a escola. Volto pra casa e subo para o escritório.
Hoje o dia passou por mim – trabalhar em casa é geralmente sinônimo de tentativa. Raramente de sucesso.
Hora de fazer o jantar e mandar a Lea para a banheira. Depois arrancá-la da banheira. Colocar ela pra dormir. Nessa hora a escolha é sempre um livro.
Vou para a minha cama. Posso ler Bauman (o preferido do momento) ou assistir televisão. Preciso costurar uma meia-calça da madame, responder um e-mail do meu supervisor e listar alguma coisa. A TV ganhou. Ficou tarde. Amanhã leio.
01 December 2009
A Raposa e o Pequeno Príncipe
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"E foi então que apareceu a raposa:
Bom dia, disse a raposa.
Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
Quem és tu? perguntou o principezinho.
Tu és bem bonita.
Sou uma raposa, disse a raposa.
Vem brincar comigo, propôs o príncipe, estou tão triste...
Eu não posso brincar contigo, disse a raposa.
Não me cativaram ainda.
Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
O que quer dizer cativar ?
Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
É uma coisa muito esquecida, disse a raposa.
Significa criar laços...
Criar laços? Exatamente, disse a raposa.
Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.
E eu não tenho necessidade de ti.
E tu não tens necessidade de mim.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...
Mas a raposa voltou a sua idéia:
Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco.
Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol.
Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros.
Os outros me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora como música.
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo?
Eu não como pão. O trigo para mim é inútil.
Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste!
Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
Por favor, cativa-me! disse ela.
Bem quisera, disse o príncipe, mas eu não tenho tempo.
Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa.
Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos.
Se tu queres uma amiga, cativa-me!
Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.
Mas tu não a deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."
Antoine de Saint-Exupéry
27 November 2009
19 November 2009
15 November 2009
14 November 2009
10 November 2009
09 November 2009
Dim Sum
Há mais ou menos trinta e sete anos que desigualdade e injustiça me atormentam. Já incitei quem por aqui passa a fazer – o que esperamos seja – a sua parte para melhorar o mundo. Nisso também questionei qual é o meio termo, o quanto se pode fazer sendo quem somos – artistas, professores, profissionais da classe média que trabalham duro para pagar as contas e jantar fora de vez em quando.Ontem fui comer Dim Sum e beber coquetéis em um restaurante bacaninha em Cardiff. Maravilhoso. Hoje de manhã fiquei na cama lendo, enquanto o marido e a filha brincavam na piscina do hotel onde estamos. Maravilhoso. Só que a leitura era a The Economist, então um assunto inevitável é a miséria humana. O líder da Coréia do Norte acusado de alta traição, a área na Coréia do Sul onde setenta por cento da população vive de mingau de milho com capim e a vista grossa do ocidente, preocupado apenas com a desarmamento nuclear naquela região.
De volta: deixar de comer Dim Sum não faz diferença na vida de ninguém exceto a minha. Estou no País de Gales por que meu marido está aqui, a trabalho, por três meses - o vejo esporadicamente. No dia-a-dia tenho uma filha pra ensinar valores e – o que não tenho – disciplina. Além de tentar desesperadamente dar rumo ao meu trabalho e encontrar sentido em tudo isso. Ainda sem saber se fico ou se vou, lógico.
Tem sempre alguém em uma situação pior que a minha. Isso não pode ser medida de contentamento. Não funciona. Quero um carro novo, maior. Quero ir ao Brasil com mais frequência. Quero jantar fora com mais frequência. Deveria poder quereres sem me sentir culpada.
Levo minha vidinha de uma em cinco bilhões (and counting). Não sou diretamente responsável pela exploração de recursos naturais e nem da mão de obra alheia. E então, mais uma vez, a questão: cada um dos mais de cinco bilhões tem que fazer o que lhe cabe para que o mundo não acabe – pelo menos não nas nossas mãos. E para que a injustiça dos homens não se esconda atrás da injustiça dos deuses. E segue em frente que atrás vem gente.
03 November 2009
28 October 2009
21 October 2009
Lá e Aqui

Do alto da minha arrogância juvenil(!), mais aqui do que lá, não consigo não dizer: o Lula tem muito crédito. Aqui - de onde acompanho previsões econômicas, análises sociais, G8, G20 e agora a campanha vitoriosa para o Rio 2016 - ele manda muito bem.
Sim, política no Brasil é um assunto dolorido. Corrupção ainda corrompe o dia-a-dia, desnutrição e falta de educação ainda resultam em desespero e violência. Mas o Brasil levou as Olimpíadas por um boa razão. Alguém lá em cima gosta da gente. Não, não o ser-supremo e brasileiro. Os (até agora) todo-poderosos governos europeus e estadunidense (palavrinha horrorosa). Eles querem ser nossos amigos. Tem boas razões (sempre) econômicas pra isso.
No dia-a-dia brasileiro as mudanças são poucas e insignificantes? Mas existem, ouço da boca (virtual) de vários brasileiros e leio nos jornais ingleses. E insignificantes pra quem? Para os quem tem um pouco mais de comida na mesa, trabalho, um eletrodoméstico novo? Não. Pra quem esperava mais e mais rápido do governo do PT imagino que sim. Mas quem olha de longe vê progresso. Aquele da bandeira.
A classe média, tão desiludida em toda parte, é a principal agente de mudança que nós conhecemos. A classe média brasileira está acostumada a reclamar. E tem do que reclamar. Mas agora é hora de reconhecer que chegou a hora de também agir. E o primeiro passo é admitir que a carroça está andando.
No hemisfério-norte-rico é hora de rever desejos consumistas – para produzir menos lixo e desinflacionar o custo dos alimentos no mundo - além de reconhecer a extensão da própria alienação social. No hemisfério-sul-classe-média é hora de aprender a respeitar filas, cumprir regras - mesmo as da burocracia, não beber quando vai dirigir, não dirigir no acostamento, não pedir para a empregada fazer mais do que foi combinado no primeiro dia, não agir como se falar português bem ou ter pele quase branca desse crédito para sequer pensamentos de superioridade. E ensinar isso aos filhos. Com gestos. E boa sorte. Pra nós todos.
Sim, política no Brasil é um assunto dolorido. Corrupção ainda corrompe o dia-a-dia, desnutrição e falta de educação ainda resultam em desespero e violência. Mas o Brasil levou as Olimpíadas por um boa razão. Alguém lá em cima gosta da gente. Não, não o ser-supremo e brasileiro. Os (até agora) todo-poderosos governos europeus e estadunidense (palavrinha horrorosa). Eles querem ser nossos amigos. Tem boas razões (sempre) econômicas pra isso.
No dia-a-dia brasileiro as mudanças são poucas e insignificantes? Mas existem, ouço da boca (virtual) de vários brasileiros e leio nos jornais ingleses. E insignificantes pra quem? Para os quem tem um pouco mais de comida na mesa, trabalho, um eletrodoméstico novo? Não. Pra quem esperava mais e mais rápido do governo do PT imagino que sim. Mas quem olha de longe vê progresso. Aquele da bandeira.
A classe média, tão desiludida em toda parte, é a principal agente de mudança que nós conhecemos. A classe média brasileira está acostumada a reclamar. E tem do que reclamar. Mas agora é hora de reconhecer que chegou a hora de também agir. E o primeiro passo é admitir que a carroça está andando.
No hemisfério-norte-rico é hora de rever desejos consumistas – para produzir menos lixo e desinflacionar o custo dos alimentos no mundo - além de reconhecer a extensão da própria alienação social. No hemisfério-sul-classe-média é hora de aprender a respeitar filas, cumprir regras - mesmo as da burocracia, não beber quando vai dirigir, não dirigir no acostamento, não pedir para a empregada fazer mais do que foi combinado no primeiro dia, não agir como se falar português bem ou ter pele quase branca desse crédito para sequer pensamentos de superioridade. E ensinar isso aos filhos. Com gestos. E boa sorte. Pra nós todos.
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