


Aqui escrevo, descrevo meu dia-a-dia de estrangeira. Estranha lá e aqui. Vivo de amores e ódios - de lá e daqui. Nem lá nem aqui.
"The fellow that owns his own home is always just coming out of a hardware store."
Na Inglaterra a vida é tranquila. Não existe tensão social (quase). O serviço público de saúde é exemplar. Acreditem em mim, não na Sarah Palin. O governo é liberal e se vive (ou pelo menos se tenta desesperadamente) de acordo com os princípios do secularismo. Liberdade de expressão é a norma. Londres é, arguably, a cidade mais cosmopolita do mundo.
Segunda-feira começam as aulas da Lea. Segunda-feira, antes das dez tenho que estar na Rox. Ao meio dia no St John Hospice, no norte de Londres. Ainda não tenho um gravador. A tarde o Ben vem brincar. A janela do quarto tem que ser consertada. Marido trabalhando no país de Gales. Volta na sexta. Ou na quinta. Na terça tenho que sair de casa as sete e meia da manhã, mas ainda não sei pra onde. Um trem sai de Marylebone as nove e vinte. Na quarta volto a Londres, por quatro horas. A Lea vai brincar na Ella. Minha quinta ainda não foi confirmada - mas a Talia vem brincar. Troca a data da acupuntura. Sexta talvez tenha festa de aniversário de adulto, a noite. Sábado, domingo e nova segunda-feira em Londres. Na terça o marido vai para Los Angeles. Eu, de volta a Londres para o sábado e domingo trabalhando. Domingo tem festa de aniversário de criança. Prometi fazer o bolo. Esqueci. Desculpa. Toca o telefone de novo. Talvez não trabalhe no fim de semana. Talvez possa fazer o bolo afinal. Mando um texto na sexta. Na quarta tem workshop no Fabrica. Tinha esquecido.
Os dias escorrem pelos dedos. Dos pés. Enquanto não encontro tempo para muito dentro do maravilhoso mundo do Facebook, os links oferecidos pelos amigos são os melhores de há muito. No jornal estão as mais interessantes matérias dos últimos dias, semanas, meses - as acumulo na mesa da sala. A grama da vizinha fica cada dia mais verde. Ela não tem galinhas. Nem eu.
Há anos odeio o momento em que vem a pergunta: so, what do you do? Mmm... I am a photographer... and I'm doing an internship as a researcher... sociology. And I work as a Photoshop retoucher. What? I retouch images in Photoshop. Yeah... and I write a blog. And I’m a mum and a housewife. A esta altura da hierarquia das minhas atividades quem perguntou já foi buscar outro copo de vinho.
Meu pai morreu e com ele se foi a Piauí. Ele as enviava pelo correio. Ou juntava uma pilha e esperava eu ir buscar. A última eu recolhi, toda orgulhosa – nós somos quatro filhos, mas as Piauí eram guardadas pra mim – em julho de 2007. Em agosto ele morreu. E eu voltei pra Inglaterra. Saboreio, aos poucos, as revistas que me restam. Na esperança que chegue uma nova pelo correio antes que eu acabe de ler todas.
I am half Brazilian, half Norwegian and whole English. Me diz Lea, minha filha, nascida na Inglaterra, de pai norueguês. Nascer na inglaterra não é o suficiente pra ter direito a passaporte britânico – é preciso provar que os pais estiveram aqui por mais de dois anos. Isso seria simples, mas os noruegueses só aceitam multiplas nacionalidades se as outras forem ‘automáticas’. Eu quero que minha filha seja brasileira (e italiana) como eu. Automaticamente. O pai dela quer que ela tenha nacionalidade norueguesa. Assim foi feito.
O texto me foi enviado por e-mail, publicado originalmente na Folha de São Paulo, escrito por um português, sobre uma muito discutida parte da realidade britânica. Aqui reproduzo uma de:
O verão acabou. Há dias faz frio e chove. Nos prometeram um verão escaldante. Durou três semanas. Fica claro por que os ingleses são obcecados pelo tempo e a tal previsão dele. Hoje fiz porridge (mingau de aveia, mas porridge soa mais gostoso) para o café da manhã e comprei chocolates. E amaldiçoei os deuses.
Minha filha tem 6 anos, gripe e febre alta. Fiz canja com frango, noodles, cebola, amor e carinho. Ela está na minha cama, dentro de lençóis limpos, assistindo televisão. Tomou paracetamol em forma viscosa e cor de rosa.
Ontem colhi meu primeiro tomate.
"Few tasks are more like the torture of Sisyphus than house work, with its endless repetition: the clean becomes soiled , the soiled is made clean, over and over, day after day."
Tenho um jardim novo. O velho foi limpo, a terra foi revirada e muitas ervas foram plantadas. Alecrim, louro, orégano, cebolinha e outras tantas que não sei o nome em português (!). E morangos e abobrinhas. E alfazema e girassóis. Presente do Ricardo da Silva. Mineiro arretado que estava de visita e um dia acordou com vontade de arrumar meu quintal.
Existe uma lenda urbana, propagada principalmente por filmes americanos, de que os homens que vem consertar ou instalar, pintar ou demolir nossas casas e seus equipamentos são musculosos (na medida!), atraentes e interessantes. Tendo morado no Brasil pelos primeiros 26 anos da minha vida, nunca entendi bem de onde saiu essa idéia.
Barack Obama matou uma mosca. Não sete. Uma. Virou notícia de primeira página. Okay, foi mesmo impressionante: http://www.youtube.com/watch?v=5rbUH_iVjYw.
Os brasileiros dizem que Deus é brasileiro, os australianos dão graças à Deus pela Austrália, já os ateus ingleses se deram ao trabalho de criar uma campanha que diz: “provavelmente Deus não existe. Agora pare de se preocupar e aproveite sua vida.”

No outro domingo fez sol. Dia na praia. O sol brilhou, esquentou, minha filha tomou banho de mar - quase congelou. Foi um bom dia. Amigos reunidos, comida, vinho e conversa. Lua de mel com a Inglaterra.
Europe from £49 one way - anúncio da Lufthansa. Wide Range of European Tiles - loja de azulejos na esquina oposta a minha casa. London, the new Europe - poster da companhia de trens que faz Brighton-Londres, sugerindo que o povo vá turistar em Londres em lugar de ir para a Europa (!).
Coração, melão, avião, pão, violão, mamão, mão, balão, tubarão, botão, cão, calção, camarão, pião, fogão, leão, carvão, feijão, verão, chão, João, alemão, pimentão, salão, papelão e caminhão.
Quantas metades existem em um inteiro? Cada term dura três meses. Em teoria o half-term é uma semana de pausa no meio deste período – daí a palavra half (metade). Mas acabam acontecendo duas ou três vezes por term, dependendo da época do ano. Como funciona essa matemática eu não entendo.
Buscava eu um poema pra colocar aqui, em uma mistura de preguiça de escrever com vontade de ler e oferecer poesia, quando encontrei (no meu caderno de trabalho) esta pérola da cultura inglesa, transcrita pela minha belíssima filha.