27 September 2009

Na prateleira




20 September 2009

Mudei de idéia

From a tiny book called House and Home II:

"The fellow that owns his own home is always just coming out of a hardware store."

Frank McKinney Hubbard

13 September 2009

Conforto

Na Inglaterra a vida é tranquila. Não existe tensão social (quase). O serviço público de saúde é exemplar. Acreditem em mim, não na Sarah Palin. O governo é liberal e se vive (ou pelo menos se tenta desesperadamente) de acordo com os princípios do secularismo. Liberdade de expressão é a norma. Londres é, arguably, a cidade mais cosmopolita do mundo.

Recentemente acusei - em English Maths - os ingleses de atitudes-com-raízes-em-imperialismo-e-racismo. Recebi uma tormenta - se não em números em intensidade - de comentários escritos e verbais. De ingleses honorários ou oficiais. Não é racista o mundo ocidental inteiro? Os brasileiros realmente acreditam que não são racistas, mas apenas(!) classistas? Se fosse verdade, seria isso realmente algo do qual se orgulhar?

É fácil viver aqui e reclamar da falta de sol. Todo o mundo faz isso, começando com os ingleses. É fácil viver no Brasil e reclamar da violência. Todo o mundo faz isso, começando com os brasileiros.

É fácil viver na Inglaterra, ser estrangeira, brasileira, cool e olhar os outros de cima e pensar: de onde eu venho nós temos sol, calor, calor humano, a comida é maravilhosa. As pessoas são espontâneas e lindas. A medicina é incrível (deixemos de fora o por-que-eu-posso, claro) e a alegria impera.

É fácil ir ao Brasil, ser estrangeira - ou pelo menos estranha - moradora da Inglaterra, chique, olhar os outros de cima e pensar: eu vivo em um país civilizado, sem violência nas ruas, onde eu posso comprar uma calça jeans bem cortada sem a implicação moral de gastar o correspondente a três meses de salário de alguém que mora não muito longe. Aí é só vestir a tal calça e me incluir no grupo de gente linda, talentosa e bem sucedida que adora saber que eu fiz um mestrado em Londres. Posso mencionar Bordieu, discutir Sontag e fingir que sei algo de Foucault. E no meio do caminho admitir que não faço idéia quem foi Cummings e nunca li Platão. Ou Freud.

O problema é que sempre chega a hora em que percebo que ser estrangeira envolve perda ou confusão de identidade. E que, nem tão no fundo, eu adoraria ter uma empregada - e - uma diarista. Que a tal calça bem cortada não garante estilo em lugar nenhum do mundo. Que os móveis da Ikea (que lotam minha casa) foram, potencialmente, feitos por trabalhadores explorados em alguma parte do mundo. Eles só moram mais longe. Que racismo, miséria e injustiça existem em todos os lugares e minha atitude perante o mundo é ingênua e egoísta.

A verdade é que sinto falta de médicos especialistas a disposição de um toque no telefone. Que aprendi a comer bem aqui. Que nunca vou manter uma discussão de igual pra igual com meus amigos intelectuais. Que não tenho disciplina para me manter linda como as brasileiras no Brasil fazem. E que ao mesmo tempo nunca vou me permitir orgulho de quaisquer imperfeições do meu corpo, que na era do Photoshop, são infindas. Nem lá nem aqui é decididamente um lugar confortável.

06 September 2009

Gente Grande

Segunda-feira começam as aulas da Lea. Segunda-feira, antes das dez tenho que estar na Rox. Ao meio dia no St John Hospice, no norte de Londres. Ainda não tenho um gravador. A tarde o Ben vem brincar. A janela do quarto tem que ser consertada. Marido trabalhando no país de Gales. Volta na sexta. Ou na quinta. Na terça tenho que sair de casa as sete e meia da manhã, mas ainda não sei pra onde. Um trem sai de Marylebone as nove e vinte. Na quarta volto a Londres, por quatro horas. A Lea vai brincar na Ella. Minha quinta ainda não foi confirmada - mas a Talia vem brincar. Troca a data da acupuntura. Sexta talvez tenha festa de aniversário de adulto, a noite. Sábado, domingo e nova segunda-feira em Londres. Na terça o marido vai para Los Angeles. Eu, de volta a Londres para o sábado e domingo trabalhando. Domingo tem festa de aniversário de criança. Prometi fazer o bolo. Esqueci. Desculpa. Toca o telefone de novo. Talvez não trabalhe no fim de semana. Talvez possa fazer o bolo afinal. Mando um texto na sexta. Na quarta tem workshop no Fabrica. Tinha esquecido.

31 August 2009

Ilhada

Os dias escorrem pelos dedos. Dos pés. Enquanto não encontro tempo para muito dentro do maravilhoso mundo do Facebook, os links oferecidos pelos amigos são os melhores de há muito. No jornal estão as mais interessantes matérias dos últimos dias, semanas, meses - as acumulo na mesa da sala. A grama da vizinha fica cada dia mais verde. Ela não tem galinhas. Nem eu.

A consciência destas impressões me catapultaram à outra: começo a gostar (cada vez mais) da minha casa, de Brighton, de Londres, da Inglaterra e de seus valores. Comprei passagem para ir visitar o Brasil. Prometi a mim e a muitos ir olhar de perto. Na hora de sair do limbo percebo que ele é um lugar confortável.

25 August 2009

72

JORFerlauto

97

JORFerlauto

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JORFerlauto

132

JORFerlauto

24 August 2009

Aniversário

Fotos: Juan Carlos Meza

Se perguntarem
digam que sim,
fumei meus dias.


JORFerlauto
11/07/1951 – 24/08/2007


O canceriano morreu de câncer. Cresceu e viveu Dedé, mas nos últimos anos adotou o nome de batismo: José Otávio. Assim morreu. José Otávio, poeta, jornalista, cronista. Meu pai.

Fumou todos os dias, dos 16 aos 56 anos. Não bebia. O matou um câncer no fígado - os pulmões intactos. Nos últimos dias o cigarro requeria muito esforço para manter na boca. Alguns eu mesma segurei para que ele pudesse fumar.

Os filhos todos vieram para perto. Um luxo, disse ele, com um sorriso fraquinho. Meu irmão e eu nos atiramos da Inglaterra para o Brasil para estar lá. Por ele e por nós mesmos. Somos quatro - ex-fumantes, não fumante e fumante. Todos fumávamos naqueles dias de companhia e vigília. Em homenagem. E desespero.

23 August 2009

Ervas, legumes, frutas e flores II

Agora visíveis. Agora com beterrabas. A grama vai ficando. Lembro sempre do meu pai. Plantas dão trabalho e prazer. Ele gostava dos dois.

17 August 2009

Sísifo II


14 August 2009

What do you do?

Há anos odeio o momento em que vem a pergunta: so, what do you do? Mmm... I am a photographer... and I'm doing an internship as a researcher... sociology. And I work as a Photoshop retoucher. What? I retouch images in Photoshop. Yeah... and I write a blog. And I’m a mum and a housewife. A esta altura da hierarquia das minhas atividades quem perguntou já foi buscar outro copo de vinho.

Pra quem leu até aqui pode parecer bastante, mas esse bastante não se traduz em uma carreira, nem em um salário regular e consequentemente não tem influência sobre a minha auto-estima.

Outro dia uma amiga me perguntou, na cara - do Skype: quando você vai voltar a trabalhar como fotógrafa? Errr... eu nunca parei... parou sim, você retoca imagens em Photoshop! Que digo eu? O critério é esse? O que paga as contas? Nunca paguei as contas como fotógrafa.

Já comprei roupas, livros, viagens e jantares, mas nunca paguei as contas. Mesmo antes de ser mãe, e me perder de vez no mundo-ocidental-profissional, o que pagava as contas era o Photoshop. E antes disso o marido. E depois disso o outro marido.

Esses dias ensaio desenvolver meu próprio trabalho, fotografando e escrevendo, traduzindo – enquanto não consigo cuspir ou vomitar - meus sentimentos. Um dia responderei: I’m an artist – ou - I’m a housewife. O efeito é parecido e dá pra dizer em um só suspiro.

04 August 2009

Estava escrito

Sísifo

31 July 2009

Piauí

Meu pai morreu e com ele se foi a Piauí. Ele as enviava pelo correio. Ou juntava uma pilha e esperava eu ir buscar. A última eu recolhi, toda orgulhosa – nós somos quatro filhos, mas as Piauí eram guardadas pra mim – em julho de 2007. Em agosto ele morreu. E eu voltei pra Inglaterra. Saboreio, aos poucos, as revistas que me restam. Na esperança que chegue uma nova pelo correio antes que eu acabe de ler todas.

29 July 2009

British Maths

I am half Brazilian, half Norwegian and whole English. Me diz Lea, minha filha, nascida na Inglaterra, de pai norueguês. Nascer na inglaterra não é o suficiente pra ter direito a passaporte britânico – é preciso provar que os pais estiveram aqui por mais de dois anos. Isso seria simples, mas os noruegueses só aceitam multiplas nacionalidades se as outras forem ‘automáticas’. Eu quero que minha filha seja brasileira (e italiana) como eu. Automaticamente. O pai dela quer que ela tenha nacionalidade norueguesa. Assim foi feito.

No dia-a-dia minha filha se torna cada dia mais inglesa, mas aos olhos dos ingleses ela sempre vai ser metade brasileira, metade norueguesa. Por muito tempo este conceito me intrigou e incomodou. Que direito tem eles de dizer que essa pequena inglesa com quem convivo não vai ser aceita como tal?

Depois de 10 anos nesta ilha - onde me sinto cada vez mais estrangeira - percebo que as referências e os valores que ensinamos a nossa filha são inevitavelmente conectados aos nossos, ao Brasil e a Noruega. Sem falar nas férias, que nos últimos 6 anos foram invariavelmente passadas nos dois países.

Mas o problema segue. As perguntas também. Não aceitar filhos de imigrantes como ingleses tem raízes em racismo e imperialismo. Se eu ficar aqui talvez um dia minha filha escolha jurar fidelidade a rainha (ou, entre a cruz e a espada, a bíblia) e se converta ao britanismo, adquirindo um passaporte que confirme esta escolha. Por enquanto, a convicção de que uma metade brasileira e outra metade norueguesa resultam em totalidade inglesa me faz sorrir e, confesso, acho difícil discordar.

22 July 2009

And now what?

O texto me foi enviado por e-mail, publicado originalmente na Folha de São Paulo, escrito por um português, sobre uma muito discutida parte da realidade britânica. Aqui reproduzo uma de:


Três reflexões sobre as crianças


No Reino Unido das liberdades individuais, todos serão pedófilos, até prova em contrário.

Existem adultos que sentem atração problemática por crianças. Pedófilos, eis o termo. Pessoalmente, a minha tara é a inversa. Eu sinto medo delas. Vejo uma criança por perto e sinto um impulso imediato de saltar pela janela. Não sei se existe termo clínico apropriado para descrever a minha condição. Pedofobia serve?
Se não serve, desconfio que vai servir em breve. Sobretudo se o governo de Gordon Brown, no Reino Unido, não repensar a sua última insanidade.

A questão é a seguinte: a pedofilia existe no país em números alarmantes? Então a solução que o governo trabalhista arranjou foi obrigar todos os adultos que trabalham com crianças a passar por exame criminal prévio. Professores, técnicos de saúde e até escritores de literatura infantil que regularmente visitam escolas terão de pagar 64 libras para serem checados com precisão policial. Uma vez aprovados pelo Big Brother da pedofilia, terão direito a documento onde será expressamente declarado que eles não sonham com a Shirley Temple.

Uma inovação, sem dúvida. A "presunção de inocência", figura jurídica que estrutura os Estados de Direito ocidentais, determina que todos os indivíduos são inocentes, até prova em contrário.
O Reino Unido, pátria imortal das liberdades individuais, pretende reverter o princípio. Todos serão pedófilos, até prova em contrário. Eu avisei. Saltar pela janela é a solução.

JOÃO PEREIRA COUTINHO

15 July 2009

O verão acabou.

O verão acabou. Há dias faz frio e chove. Nos prometeram um verão escaldante. Durou três semanas. Fica claro por que os ingleses são obcecados pelo tempo e a tal previsão dele. Hoje fiz porridge (mingau de aveia, mas porridge soa mais gostoso) para o café da manhã e comprei chocolates. E amaldiçoei os deuses.

Diz a lenda que o tempo aqui é desse jeito por causa das tantas maldições pronunciadas pelas mulheres queimadas na fogueira na época da Santa Inquisição. Com certeza uma versão mais contemporânea deve por a culpa na revolução industrial seguida de imperialismo desenfreado e desenvolvimento econômico irresponsável. Os vilões mudam. O frio e a chuva seguem. E o G8 jura que ainda dá tempo de adiar o fim do mundo.

13 July 2009

Canja, cama, Paracetamol e rua

Minha filha tem 6 anos, gripe e febre alta. Fiz canja com frango, noodles, cebola, amor e carinho. Ela está na minha cama, dentro de lençóis limpos, assistindo televisão. Tomou paracetamol em forma viscosa e cor de rosa.

Quando eu tinha 26 anos vim morar na Inglaterra. Pouco tempo depois que cheguei me encontrei com gripe e sozinha. Sem ninguém pra fazer canja, comprar paracetamol, trazer água da cozinha em um copo limpo. Foi um rito de passagem. Foi duro.

Não consigo deixar de pensar: o que passa pela cabeça de uma criança de rua, que aos 6 anos, se encontra doente, sozinha, sem canja, cama, paracetamol ou carinho? O que aprende essa criança neste rito de passagem? Certamente não é o primeiro nem o último.

As crianças de rua são meu pior pesadelo. São o símbolo do pior abandono pessoal e social. Da falta de perspectiva. Da injustiça dos deuses e dos homens. São parte da realidade do Brasil e delas me escondo na Inglaterra.

11 July 2009

Ciclos da natureza

Ontem colhi meu primeiro tomate.
Hoje seria o aniversário do meu pai.

Ontem chorei abraçada na minha filha.
Hoje faz frio e chove.
Fora e dentro.

06 July 2009

From a tiny book called House and Home:

"Few tasks are more like the torture of Sisyphus than house work, with its endless repetition: the clean becomes soiled , the soiled is made clean, over and over, day after day."

Simone de Beauvoir

03 July 2009

Ervas, legumes, frutas e flores

Tenho um jardim novo. O velho foi limpo, a terra foi revirada e muitas ervas foram plantadas. Alecrim, louro, orégano, cebolinha e outras tantas que não sei o nome em português (!). E morangos e abobrinhas. E alfazema e girassóis. Presente do Ricardo da Silva. Mineiro arretado que estava de visita e um dia acordou com vontade de arrumar meu quintal.

Ontem a noite, seguindo instruções, reguei todos os canteiros com cuidado. No final me dei conta que a pobre grama, que já tem data marcada para sua execução (vou colocar pedrinhas no lugar dela) estava sedenta. Faz um calor tropical por aqui esses dias - glória a todos os deuses nas alturas e nas profundezas!

Reguei a grama e fiquei pensando no meu pai - ele faz falta. Lembrava de quando morava em Londres, em um apartamento com uma muito pequena, porém muito valorizada sacada. Um dia ele, que andava por aqui, veio da cozinha com uma panela cheia de água para molhar as plantas do minísculo canteiro, na tal minúscula sacada. Pai, isso é tudo erva daninha, eu vou arrancar e plantar umas flores. Enquanto tu não plantares, essas estão aqui e estão vivas. E despejou o conteúdo da panela.

30 June 2009

13/8/82

esmurram Beirute
como quem bate num homem
na delegacia de furtos e roubos

44 mil bombas ontem
e não encontraram a cara
de quem queriam atingir

caras que brotam
entre beijos e escombros
agradecendo à vida a vida
aguardando o retorno
dos bombardeiros
nos céus do Líbano

silenciam e esvaziam
Beirute
aqueles que sobreviveram
ao holocausto

José Otávio da Rosa Ferlauto


E agora Honduras. Venezuela ensaiando. E segue o Afeganistão. E o Iraque. E para sempre os árabes e os judeus... com o consentimento dos cristãos... e perdão pelo meu eufemismo. E os homens matam uns aos outros em nome de ideologias, poder e religião. Alguma vez valeu a pena?

26 June 2009

Encanadores, pedreiros, instaladores de tv a cabo e pintoras de parede.

Existe uma lenda urbana, propagada principalmente por filmes americanos, de que os homens que vem consertar ou instalar, pintar ou demolir nossas casas e seus equipamentos são musculosos (na medida!), atraentes e interessantes. Tendo morado no Brasil pelos primeiros 26 anos da minha vida, nunca entendi bem de onde saiu essa idéia.

Uma vez em um dia de verão, já moradora de Londres, ouvi alguém dizer Good morning! Não achei que fosse comigo, nas ruas de Londres ninguém se olha no olho, imagina dizer bom dia a um desconhecido. Era ele! O pedreiro! Lindo, jovem e educado. Ele disse bom dia de novo e sorriu. E tinha todos os dentes. Ainda meio estupefata desejei um bom dia ao belo e segui adiante.

Recentemente, agora moradora de Brighton, contratei duas meninas para pintarem minha casa do lado de fora. Fazia-se necessário. Nos vários dias em que elas trabalharam eu observei os homens passando na rua e olhando longamente para as moças. Principalmente os que passavam dentro de vans, famosamente dirigidas por encanadores, pedreiros, instaladores de tv a cabo e pintores de parede. Nem uma palavra era pronunciada. Os ingleses nem se quer tem uma palavra que corresponda a Gostosa!

25 June 2009

Direitos animais

Barack Obama matou uma mosca. Não sete. Uma. Virou notícia de primeira página. Okay, foi mesmo impressionante: http://www.youtube.com/watch?v=5rbUH_iVjYw.
No Guardian, meu jornal preferido que sempre me faz rir, Lucy Mangan, que sempre me faz rir, descreveu oito maneiras de matar uma mosca. A número um está aqui:

“(...)The Barack Obama method
Brush the buzzing irritant that is not Hilary away and try to continue with your task. When the fly persists, stop. Gather your thoughts and energies. Focus. Bring the fly to land on your left hand by sheer force of will. Fascinate the fly with your charm and charisma. As it gazes at you with its red compound eyes, raise your right hand and slap it down upon the enthralled insect. Sit back in silent acknowledgement of the fact that you are not just part-black, part-white, part-messiah but also part zen-freaking master. (...)”

Horas depois de ler o jornal, escutava eu a Radio Four (BBC – só falam, não tocam música - I am part nerd-freaking weird) quando o assunto entrou na programação. O locutor anunciou: Obama killed a fly... bladibla... e então chamou seu convidado, Professor de Filosofia da Universidade de Cambridge. Que fique claro: a palavra ‘Professor’ em inglês é título para o cargo mais prestigiado dentro do mundo acadêmico. Este senhor foi chamado para responder a seguinte pergunta: tudo bem em matar uma mosca? Sim, as moscas são parasitas e matá-las é instintivo. Moscas podem ser mortas sem maiores implicacões morais – foi a reposta. Não, eu não estou brincando.

Anos atrás meu marido trabalhou em um curta metragem na Espanha. Na volta ele montou um showreel (portfolio, mas de filmes) que incluia uma cena deste filme, em que uma senhora rabugenta vê uma barata andando em cima da mesa. Corta para ela levantando uma concha de sopa para matá-la. Perguntada minha opinião eu disse: sinto falta da parte em que a barata aparece morta. Problema. Eles haviam realmente matado a barata. Poderia causar polêmica. Tive que explicar: baratas não tem direito a vida! Os espanhóis da equipe se preocuparam com isso? Não. Claro que não! Onde tem baratas todo o mundo sabe disso! Até hoje não tenho certeza se o conceito foi completamente absorvido pelo norueguês com quem divido uma casa há oito anos, em uma cidade inglesa onde baratas não existem.

18 June 2009

Deus não é inglês

Os brasileiros dizem que Deus é brasileiro, os australianos dão graças à Deus pela Austrália, já os ateus ingleses se deram ao trabalho de criar uma campanha que diz: “provavelmente Deus não existe. Agora pare de se preocupar e aproveite sua vida.”

www.atheistbus.org.uk

P.S.: em Londres muitas igrejas foram vendidas e transformadas em cafés, escolas, estúdios de música e até casas.

P.S.II: sim, houve controversia e resposta do partido cristão também no ônibus, mas não foi a mesma coisa. Nunca é.

15 June 2009

Ou Isto ou Aquilo no (meu) Reino Unido


Produtos de Limpeza: ecológicos, caros e não tão eficientes ou poluentes, baratos e eficientíssimos.

Empregadas domésticas: meu reino por uma! ou igualdade social ao ponto de todos terem as mesmas oportunidades e salários que lhes permitam uma vida tão confortável quanto a minha (ou quase) – o que se traduz em não poder pagar por uma... como é aqui.

Roupas: vou ao Sale da Gap e me esbaldo ou questiono o sistema de produção que eles empregam. Abro mão de comprar cinco peças de roupa e vou atrás de quem mantém um sistema de cooperativa na produção de seus produtos e com o mesmo dinheiro compro uma camisa e meia.

Ainda nas roupas: passo horas, dias da minha vida garimpando brechós ou entro na H&M e vou direto ao que quero, sem nem experimentar e saio com o que preciso sem gastar mais do que gasto no supermercado.

Reciclagem: jogo tudo em uma caixa ou lavo com cuidado antes de fazê-lo, gastando preciosa água potável.

Inverno: me embrulho em roupas e cobertores e evito ligar o aquecimento central - pra não produzir gases nocivos ao meio ambiente - ou ligo, pago a conta, fico quieta e quente.

Carne: deixo de comer carne em nome do bem estar dos animais e do balanço ambiental ou uso carnes como base da dieta e acrescento um amido e legumes e salada, fazendo a minha vida muito mais fácil na hora de preparar o jantar.

Estas questões são bastante inglesas e européias (!) junto com racismo e imigração. No Brasil ecologia passa por outros caminhos e as questões sociais são mais complexas. Ou serão mais simples? São diferentes de qualquer jeito... então a questão é sempre a mesma: cada um tem que fazer a sua parte. Quanto é o mínimo, quanta diferença todos os mínimos fazem são boas perguntas e quem se dá ao trabalho de ter consciência (invariavelmente a classe média) deve se manter forte em seus princípios.

Considerar-se liberal e chamar o outro de veado em tentativa de ofender não serve. Rir de piada racista então... pensar que a desigualdade social é o mal do mundo, mas tomar proveito dela pra cercar-se de serviçais é contraditório. Pagar pelo silicone da muher não faz ela se sentir mais amada (pelo menos não de onde eu venho). Reclamar da malandragem, mas achar que quem segue regras é trouxa não combina. E finalmente escapar da burocracia dando um jeitinho é tentador, mas não muda nada. Aliás, eu aqui nomeio a burocracia inimiga número um da ordem e do progresso.

P.S.: alguns istos são mais fáceis que aquilos: as roupas e as carnes são as mais difíceis de abrir mão. E a casa quente. Não sobra muito. Empregada não tenho mesmo, minha faxineira cobra por hora e bem. Produtos de limpeza ecológicos funcionam, quase todos. Seguir as regras é mais fácil onde não existe burocracia. Termos ofensivos não são uma opção e silicone, não obrigada.

Eu tento desesperadamente encontrar um meio termo - mais pra um lado que pro outro, que me permita dormir a noite. Ontem plantei mais tomates. E comprei uma composteira para o meu mini-jardim.

08 June 2009

Ou Isto ou Aquilo









Ou se tem chuva ou se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é o melhor: se é isto ou aquilo

Cecília Meireles

(Do livro Ou Isto ou Aquilo - Editora Civilização Brasileira, 1980)

Benção e Maldição

No outro domingo fez sol. Dia na praia. O sol brilhou, esquentou, minha filha tomou banho de mar - quase congelou. Foi um bom dia. Amigos reunidos, comida, vinho e conversa. Lua de mel com a Inglaterra.

No dia seguinte, a Marianela – grande amiga, venezuelana – me diz que a noite ela acompanhou o marido até o mar, onde ele nadou por alguns minutos. Haviam pessoas dançando e cantando na beira da praia. Estava lindo! Quero fazer uma fogueira... no final da tarde... me diz ela em tom de convite. E pode? Retruco eu. Sabe como é, nesse país nada pode...

Mas verdade verdadeira, nós amamos a Inglaterra. E o Brasil. E a Venezuela. Seus defeitos, qualidades, suas gentes e estações do ano. Para sempre estaremos – de certa maneira – nem lá nem aqui. Provamos a vida em mais de um mundo. Nunca mais nos contentaremos com menos do que o melhor de cada um.

02 June 2009

A Inglaterra não fica na Europa

Europe from £49 one way - anúncio da Lufthansa. Wide Range of European Tiles - loja de azulejos na esquina oposta a minha casa. London, the new Europe - poster da companhia de trens que faz Brighton-Londres, sugerindo que o povo vá turistar em Londres em lugar de ir para a Europa (!).

Dei um Google em por que os ingleses não se consideram europeus. Saiu, sim o Reino Unido - e portanto a Inglaterra - são parte do continente europeu, todo mundo sabe disso. Mas parece que alguém esqueceu de avisar...

Nas rádios da BBC, jornalistas frequentemente se referem a Comunidade Comum Européia como Europa. Eu mesma já tive uma discussão acalorada com meu vizinho, que a princípio reagiu como se eu o tivesse ofendido, mas no final declarou: sim a Europa é um continente, do qual a Inglaterra faz parte. Mas nós vivemos em uma ilha, construimos um império, somos arrongantes e infelizmente não nos misturamos...

A foto é da praia de Brighton, que fica no English Channel. Do outro lado, na França, o mesmo canal se chama La Manche.

29 May 2009

entÃO...

Coração, melão, avião, pão, violão, mamão, mão, balão, tubarão, botão, cão, calção, camarão, pião, fogão, leão, carvão, feijão, verão, chão, João, alemão, pimentão, salão, papelão e caminhão.

Estou em uma missão: fazer minha filha pronunciar este som com sotaque brasileiro. Nada fácil. Ela adora a brincadeira, tenta, mas o sotaque ainda não tá bão.

A imagem acima vale por 26 palavras - terminadas em 'ão'? Com sotaque inglês-inho...?

27 May 2009

Half-term

Quantas metades existem em um inteiro? Cada term dura três meses. Em teoria o half-term é uma semana de pausa no meio deste período – daí a palavra half (metade). Mas acabam acontecendo duas ou três vezes por term, dependendo da época do ano. Como funciona essa matemática eu não entendo.

Na semana passada outra mãe da escola da Lea (a esta altura somos todas mães de alguém) me perguntou casualmente: what are you going to do during half-term? Pensei um segundo e disse: I don’t know... pull my hair out?

Como essas mulheres conseguem ser felizes, trabalhar e criar os filhos? Ok, a maioria tem os pais perto. Grande parte não trabalha ou trabalha pouco e quem me diz que elas são felizes?

Será que crescer sabendo que nunca vai se ter uma empregada pra ajudar na casa, raramente uma babá pra buscar os filhos na escola, que o marido (ou na falta de um, o governo) vai ter que ser o principal provedor da família e que o sol só vai brilhar dois meses por ano faz do dia-a-dia uma tarefa mais fácil de encarar? Ou será que a vida depois dos trinta, com filhos pra criar, é difícil em qualquer lugar?

24 May 2009

TOMBOS

De todos os tombos
que na vida levei
o pior foi nascer
e o maior foi morrer


José Otávio da Rosa Ferlauto
11/07/1951 - 24/08/2007

20 May 2009

On the ning nang nong

Buscava eu um poema pra colocar aqui, em uma mistura de preguiça de escrever com vontade de ler e oferecer poesia, quando encontrei (no meu caderno de trabalho) esta pérola da cultura inglesa, transcrita pela minha belíssima filha.

On the ning nang nong

Where the cows go bong

And the monkeys all say boo

On the nong nang ning

Where the trees go ping

And the tea pots jiber, jaber, joo.



19 May 2009

I own the greenest car in Britain

Eu sou a proprietária do carro mais ecologicamente correto da Grã-Bretanha!